- Maldita vagabunda. Quem mandou essa piranha pegar minha arma e meu dinheiro?
Os passos de Luiz eram pesados e compassados pelas poças de água. Desceu o morro olhando para baixo, pelos cantos, estava com as mãos limpas.
-Ótimo! Esse cano de ferro vai ser uma beleza.
Ele não é forte, magro, mas os pequenos músculos dilataram com a fúria. Pobre, Luiz só podia contar coma furada aposentadoria por invalidez, era ágil mesmo com uma perna mecânica.
Andando pelos becos estreitos do morro, passando pelas poças de lama, Luiz via em cada casa uma família diferente. País brigando na frente dos filhos, avós vendo televisão, crianças usando drogas, ele não ligava para essas coisas, apenas queria a sua arma e o seu dinheiro.
Pouca luz atrás de um muro, ali é perfeito para ele se esconder, agachado entre pneus e sacolas de lixo, quem passasse por ali o confundiria facilmente com um cão ou algum monte de lixo. Ele não é belo, nem esbelto, cabeça raspada e olhos fundos, não seria difícil de ser confundido com um fantasma.
Em baixo, descendo as escadas ele viu a mulher, negra e volumosa, no meio de uma boca de fumo, cercada por sujeitos vestindo trapos e armados com fuzis.
-É claro que eles não vão aceitar, eles vão ver quem é o dono e mandar cair fora de lá – Pensou Luiz que não tirava os olhos da mulher por nenhum minuto, a observava como um predador que sentia o cheiro da sua presa.
Do alto Luiz consegue ver apenas os gestos que dizem tudo. Ela ofereceu, eles abriram a carteira e mostraram uns para os outros, devolveram para a mulher e deram um tapa forte na cabeça dela, entregaram as coisas, deram mais um chute na bunda e agora ela está voltando.
Ela não conseguiu ver Luiz, ele se recolheu rapidamente e ficou esperando, atrás dos pneus a hora em que ela fosse passar.
A respiração ficou densa, ele precisava do silêncio para poder ouvir o par de chinelos se arrastando escada acima. Podia ouvir seu próprio coração, o cano de ferro estava frio, o sentiu vibrando como um ser vivo pedindo sangue.
Falta pouco, ele já podia sentir o cheiro podre do álcool e das drogas subindo, ele fechou os olhos, ela estava resmungando qualquer coisa. Ela passou por ele, não o viu, um passo, dois, três, ela estava totalmente de costas.
O cano voou em direção ao crânio dela fazendo um zunido característico da força do golpe. O sangue fez no rosto de Luiz uma pintura abstrata, ela caiu no chão, inconsciente.
-Carteira, Magnum, ótimo – Luiz pegou suas coisas que estavam com ela, pôs a carteira no bolso e verificou se a arma estava carregada.
Os tiros ecoaram em todo o morro. Ninguém iria chamar a policia, tão pouco, ir ver oque havia acontecido, por isso Luiz amava aquele lugar. Cinco tiros, uma poça vermelha no chão, como uma lua de sangue no meio da escuridão.
Embaixo, os traficantes olhavam e tentavam ver oque estava por trás da sombra escura do beco. O liquido vermelho começou logo a escorrer degrau por degrau, um chute seco e o corpo daquela mulher começou a descer junto com o sangue.
A cada degrau um estalar de ossos, a cabeça e membros moles, caindo pelos degraus como um saco, um bicho morto, sem vida, fez o mesmo de sempre, só que com a pessoa errada.
O corpo chegou ao fim da sua trajetória, nos pés dos traficantes, um ser desfigurado por buracos ainda quentes no rosto. Eles olharam, acharam melhor ir embora.
-Ei! Ela esqueceu uma coisa! Uma voz escondida pelas sombras no topo da escada.
Um saco plástico é atirado de lá e aterrissa em cheio no rosto desfigurado da mulher.
- Eu prefiro jogar todo o lixo de uma vez só.




1 comentários:
Tenso!!!
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